quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Seis hábitos



Há alguns anos passava o carnaval, alternadamente, entre Olinda, Recife e Ilha de Itamaracá/PE. Lá tive oportunidade de contato com uma alemã, que não me lembro mais do seu nome, que viajava pelo Mundo conhecendo pessoas, novas culturas e se enriquecendo com todas novidades que via pela frente.

Em uma conversa, regada a algumas cervejas, perguntei a ela como via o brasileiro. Ela, então, me respondeu o seguinte: brasileiro não é muito direto/objetivo em suas respostas, ou seja, são sempre evasivos no momento de tomar uma posição/decisão a respeito de qualquer assunto. Pedi que ela me explicasse melhor como seria isso. Bem, ela respondeu que o brasileiro nunca responde uma pergunta de forma clara e objetiva, sempre deixando transparecer uma dúvida ou uma falta de segurança em responder. Ela, disse, também, que o brasileiro para não decepcionar seu interlocutor sempre dizia sim quando queria dizer não ou vice-versa.

Pois bem, estava navegando pela internet e acabei me defrontando com um texto com o seguinte título: “6 hábitos do brasileiro no trabalho que gringos não entendem”, publicado no site Exame.com que pode ser visto clicando no link abaixo:


Realmente, na minha vida sempre tive dificuldades em manter um bom diálogo com outras pessoas, pois sempre tentei ser o mais claro e objetivo possível quando tento colocar minhas opiniões ou quando defendo algo que, as vezes, me parece lógico. Muitos até me acham meio grosso e dizem que sou mal educado. Outros dizem que sou muito frio.

Teve um período na minha vida que trabalhei como professor de matemática em escolas públicas ministrando aulas de matemática para alunos da quinta a sexta série, do antigo primeiro grau. Lembro-me que ao chegar em uma determinada escola, fui logo procurar Diretora para me apresentar e falei para ela: Boa noite! Meu nome é Antonio Carlos, sou professor de matemática e estou me apresentando para ministrar aulas. Ela me olhou. Fixou bem os olhos em mim, e respondeu, na verdade exclamou: você é muito direto!

Então, aonde quero chegar com toda essa conversa?

Com o passar do tempo, larguei minha profissão de professor e fui trabalhar como funcionário público e, diante das relações interpessoais sempre pautada em diálogos francos e objetivos deixem sempre muita gente meio chateada.

Passei a morar em um determinado condomínio em Fortaleza e, com o tempo tive a oportunidade de administrar o condomínio na qualidade de síndico. Aí sem, o bicho pegou!

O pior mesmo é manter uma gestão onde se tenta manter um diálogo franco, aberto e transparente sobre diversos assuntos: financeiros, políticos, direito de vizinhança e, principalmente, nas relações interpessoais.

Diante de muita coisa a ser administrada e decisões s serem tomadas, que muitas vezes vai de encontro ao interesse pessoal ou de algum determinado grupo, o síndico acaba sendo rotulado de chato, ranzinza, prepotente, durão, ditador. Creio que o problema decorre na confusão mental em que alguns moradores acabam fazendo sobre a figura do síndico gestor com a pessoa do morador síndico.

A não diferenciação do morador síndico/gestor leva a alguns acharem que o síndico é um mero empregado do condomínio, e, para alguns o síndico/gestor tem que cumprir as determinações de um determinado grupo que, por algum motivo, se unem para tentar estabelecer suas próprias regras em detrimento daqueles que não se agrupam ou que, por omissão, não se preocupam na boa administração condominial.

Então, com base no texto “6 hábitos do brasileiro no trabalho que gringos não entendem”, fiz um paralelo com a relação síndico/gestor e com a massa condominial. Fiz algumas adaptações para tentar esclarecer meu ponto de vista.

1. Rodear e rodear para, enfim, chegar ao ponto.

O principal desafio do síndico ao lidar com os condôminos está, vejam só, na comunicação. E não é só uma questão de fluência em outro idioma ou o uso de um vocabulário mas rebuscado ou técnico. O que “pega” para os interessados na boa gestão condominial é a maneira como nos expressamos. Para alguns moradores ser direto e objetivo é sinônimo de autoritarismo, grosseria ou pedantismo.

“O brasileiro precisa explicar antes de chegar ao ponto”. “Os anglo-saxões, em geral, vão direto ao ponto: falam primeiro o que querem e, depois, tecem uma conversinha conforme o que o outro pede”.

Pode parecer um pequeno detalhe, mas, na prática, esta diferença pode comprometer a relação síndico morador. “As pessoas chegam a ficar irritadas”, segundo alguns a especialistas no assunto.

2. Usar o “sim” como um “talvez”.

“A gente não quer ferir a outra pessoa, vamos falando devagarinho e, às vezes, não somos totalmente francos ou diretos”.

Assim, o “sim” vira “talvez”; o “talvez”, “não” e o “não” propriamente dito nunca aparece – nas promessas, é claro, porque na prática, está presente o tempo todo. Diante disso, alguns tendem a ficar confusos e, no pior dos cenários, frustrados.

3. Querer amigos, não gestores.

O ideal para quem mora condomínio é ter um síndico “inspirador, motivador, amigável e sociável”.

Ou seja, na prática, mais do que alguém que ajude a conseguir bons resultados administrativos com redução de despesas e melhoria na prestação de serviço, o condômino quer conviver com um síndico quem seja fácil se relacionar e que possa fazer vistas grossas a determinada situações e que consiga satisfazer a todos.

“O brasileiro tende a focar no relacionamento (amigo). Primeiro, ele tem que confiar e se dar bem. Depois, vem as obrigações”.

Isso se materializa, por exemplo, nas (“necessárias”) conversas pessoais antes de começar uma reunião, na ocupação do espaço do outro (nos comuns contatos físicos) e até em nossa (velada) dificuldade em separar o que é profissional do que é pessoal.

4. Ajustar o alcance da visão.

O brasileiro tende a ter uma visão de negócios focada no curto prazo. “Queremos fechar negócio, fazer movimentos rápidos”, diz. “Enquanto na cultura oriental, por exemplo, as pessoas não fazem negócios com quem não conhecem”.

Por outro lado, tendo em vista as condições do mercado no Brasil, aprende-se desde cedo que, muitas vezes, é preciso improvisar. Com isso, apesar de não elaborar planos rígidos, por exemplo, o brasileiro tende a guardar na manga um plano B. “Ou C ou D”.

5. Buscar exceções – o tempo todo.

“Nosso cotidiano é repleto de exceções”. É o código de conduta que não é seguido à risca; a lei que, na prática, “não é bem assim” e por aí vai. “Aos amigos tudo, ao inimigo a lei”.
Isso não é válido em outras culturas. “Tendemos a ser indisciplinados, precisamos trabalhar com regras rígidas para que o "jeitinho" seja controlado”.

Quando em contato com outras linhas corporativas, o brasileiro, além de ler, precisa seguir o manual – sem criar atalhos.

6. Não andar no ritmo dos ponteiros.

Uma consequência desta cultura de flexibilidade é a maneira como lidamos com o tempo. Atrasos fazem parte da rotina de muitas corporações por aqui. Quantas vezes, por exemplo, você foi pontual e teve que esperar alguns bons minutos para que a reunião começasse?

Em outros países ou culturas, esta rotina é quase um insulto. E não levar isso em conta quando você trabalha em equipes multiculturais pode ser danoso para a sua própria carreira.

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