Há alguns anos passava o carnaval, alternadamente,
entre Olinda, Recife e Ilha de Itamaracá/PE. Lá tive oportunidade de contato
com uma alemã, que não me lembro mais do seu nome, que viajava pelo Mundo
conhecendo pessoas, novas culturas e se enriquecendo com todas novidades que
via pela frente.
Em uma conversa, regada a algumas cervejas,
perguntei a ela como via o brasileiro. Ela, então, me respondeu o seguinte: brasileiro
não é muito direto/objetivo em suas respostas, ou seja, são sempre evasivos no
momento de tomar uma posição/decisão a respeito de qualquer assunto.
Pedi que ela me explicasse melhor como seria isso. Bem, ela respondeu que o
brasileiro nunca responde uma pergunta de forma clara e objetiva, sempre
deixando transparecer uma dúvida ou uma falta de segurança em responder.
Ela,
disse, também, que o brasileiro para não decepcionar seu interlocutor sempre
dizia sim quando queria dizer não ou vice-versa.
Pois bem, estava navegando pela internet e acabei
me defrontando com um texto com o seguinte título: “6 hábitos do brasileiro no
trabalho que gringos não entendem”, publicado no site Exame.com que pode ser
visto clicando no link abaixo:
Realmente, na minha vida sempre tive dificuldades
em manter um bom diálogo com outras pessoas, pois sempre tentei ser o mais
claro e objetivo possível quando tento colocar minhas opiniões ou quando
defendo algo que, as vezes, me parece lógico. Muitos até me acham meio grosso e
dizem que sou mal educado. Outros dizem que sou muito frio.
Teve um período na minha vida que trabalhei como
professor de matemática em escolas públicas ministrando aulas de matemática
para alunos da quinta a sexta série, do antigo primeiro grau. Lembro-me que ao
chegar em uma determinada escola, fui logo procurar Diretora para me apresentar
e falei para ela: Boa noite! Meu nome é Antonio Carlos, sou professor de
matemática e estou me apresentando para ministrar aulas. Ela me olhou. Fixou
bem os olhos em mim, e respondeu, na verdade exclamou: você é muito direto!
Então, aonde quero chegar com toda essa conversa?
Com o passar do tempo, larguei minha profissão de
professor e fui trabalhar como funcionário público e, diante das relações
interpessoais sempre pautada em diálogos francos e objetivos deixem sempre
muita gente meio chateada.
Passei a morar em um determinado condomínio em
Fortaleza e, com o tempo tive a oportunidade de administrar o condomínio na
qualidade de síndico. Aí sem, o bicho pegou!
O pior mesmo é manter uma gestão onde se tenta
manter um diálogo franco, aberto e transparente sobre diversos assuntos:
financeiros, políticos, direito de vizinhança e, principalmente, nas relações interpessoais.
Diante de muita coisa a ser administrada e decisões
s serem tomadas, que muitas vezes vai de encontro ao interesse pessoal ou de
algum determinado grupo, o síndico acaba sendo rotulado de chato, ranzinza,
prepotente, durão, ditador. Creio que o problema decorre na confusão mental em
que alguns moradores acabam fazendo sobre a figura do síndico gestor com a
pessoa do morador síndico.
A não diferenciação do morador síndico/gestor leva
a alguns acharem que o síndico é um mero empregado do condomínio, e, para
alguns o síndico/gestor tem que cumprir as determinações de um determinado
grupo que, por algum motivo, se unem para tentar estabelecer suas próprias
regras em detrimento daqueles que não se agrupam ou que, por omissão, não se
preocupam na boa administração condominial.
Então, com base no texto “6 hábitos do brasileiro
no trabalho que gringos não entendem”, fiz um paralelo com a relação
síndico/gestor e com a massa condominial. Fiz algumas adaptações para tentar
esclarecer meu ponto de vista.
1. Rodear e rodear para, enfim,
chegar ao ponto.
O principal desafio do síndico ao lidar com os
condôminos está, vejam só, na comunicação. E não é só uma questão de fluência
em outro idioma ou o uso de um vocabulário mas rebuscado ou técnico. O que
“pega” para os interessados na boa gestão condominial é a maneira como nos
expressamos. Para alguns moradores ser direto e objetivo é sinônimo de
autoritarismo, grosseria ou pedantismo.
“O brasileiro precisa explicar antes de chegar ao
ponto”. “Os anglo-saxões, em geral, vão direto ao ponto: falam primeiro o que
querem e, depois, tecem uma conversinha conforme o que o outro pede”.
Pode parecer um pequeno detalhe, mas, na prática,
esta diferença pode comprometer a relação síndico morador. “As pessoas chegam a
ficar irritadas”, segundo alguns a especialistas no assunto.
2. Usar o “sim” como um “talvez”.
“A gente não quer ferir a outra pessoa, vamos
falando devagarinho e, às vezes, não somos totalmente francos ou diretos”.
Assim, o “sim” vira “talvez”; o “talvez”, “não” e o
“não” propriamente dito nunca aparece – nas promessas, é claro, porque na
prática, está presente o tempo todo. Diante disso, alguns tendem a ficar
confusos e, no pior dos cenários, frustrados.
3. Querer amigos, não gestores.
O ideal para quem mora condomínio é ter um síndico
“inspirador, motivador, amigável e sociável”.
“O brasileiro tende a focar no relacionamento
(amigo). Primeiro, ele tem que confiar e se dar bem. Depois, vem as obrigações”.
Isso se materializa, por exemplo, nas
(“necessárias”) conversas pessoais antes de começar uma reunião, na ocupação do
espaço do outro (nos comuns contatos físicos) e até em nossa (velada)
dificuldade em separar o que é profissional do que é pessoal.
4. Ajustar o alcance da visão.
O brasileiro tende a ter uma visão de negócios focada
no curto prazo. “Queremos fechar negócio, fazer movimentos rápidos”, diz.
“Enquanto na cultura oriental, por exemplo, as pessoas não fazem negócios com
quem não conhecem”.
Por outro lado, tendo em vista as condições do
mercado no Brasil, aprende-se desde cedo que, muitas vezes, é preciso
improvisar. Com isso, apesar de não elaborar planos rígidos, por exemplo, o
brasileiro tende a guardar na manga um plano B. “Ou C ou D”.
5. Buscar exceções – o tempo
todo.
“Nosso cotidiano é repleto de exceções”. É o código
de conduta que não é seguido à risca; a lei que, na prática, “não é bem assim”
e por aí vai. “Aos amigos tudo, ao inimigo a lei”.
Isso não é válido em outras culturas. “Tendemos a
ser indisciplinados, precisamos trabalhar com regras rígidas para que o
"jeitinho" seja controlado”.
Quando em contato com outras linhas corporativas, o
brasileiro, além de ler, precisa seguir o manual – sem criar atalhos.
6. Não andar no ritmo dos
ponteiros.
Uma consequência desta cultura de flexibilidade é a
maneira como lidamos com o tempo. Atrasos fazem parte da rotina de muitas
corporações por aqui. Quantas vezes, por exemplo, você foi pontual e teve que
esperar alguns bons minutos para que a reunião começasse?
Em outros países ou culturas, esta rotina é quase
um insulto. E não levar isso em conta quando você trabalha em equipes
multiculturais pode ser danoso para a sua própria carreira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário